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Textos sobre educação
1. Educação
do Futuro: "Em vez da escola, a casa".
"Quatro caminhos para o futuro".
-
Dulce Neto, Jornal "Público" 30.11.98.
2. Professor,
uma profissão em extinção.
-
João Baptista Magalhães, "Jornal de Notícias"
22.1.1999.
3. Só a
Cultura Oferecerá Uma Verdadeira Consciência Europeia
Por
YEHUDI MENUHIN
Jornal
"Público" Quarta-feira, 24 de Março
de 1999
(textos transcritos pelo seu interesse, com a devida vénia)
| "OCDE
analisa a educação do próximo milénio
|
Por DULCE NETO EM POITIERS, Segunda-feira, 30 de Novembro de 1998
Aprender em casa. Com as novas tecnologias, com a Internet e com a impaciência com que os pais olham para as escolas porque não devolver à família a tarefa do ensino? Este é só um cenário, polémico, para a "escola de amanhã". Outra perspectiva, mais pedagógica é a que nos diz que todas as crianças são inteligentes. Há só que adaptar a estratégia a cada aluno.
Como
será a escola do milénio? Será capaz de preparar cidadãos
aptos para sobreviver com êxito num mundo em transformação
constante onde trabalho não significa emprego? Está preparada
para ensinar aos alunos uma nova atitude, a do aprender sempre ao longo
da vida? Terá coragem para abandonar um modelo tradicional
de transmissão de saberes para mais do que conhecimentos
desenvolver
capacidades?
Entre
o desejo e a previsão oscilam os especialistas do CERI - Centre
for Educational Research and Innovation (Centro de Investigação
e Inovação Educacional) da Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Ainda
não têm todas as respostas. Mas já sabem que a escola
da era industrial, aquela que nos resta, não consegue responder
às exigências da sociedade do
conhecimento.
O CERI aproveitou o seu 30º aniversário assinalado há
precisamente uma semana, no Futurescope, em Poitiers, França, para
progredir na discussão do tema.
David Hargreaves, da Universidade de Cambridge, Inglaterra, que abordou o problema dos valores e da identidade em sociedades multi-étnicas, onde o fundamentalismo religioso e o relativismo pós-moderno são vizinhos, esboça um horizonte preocupante para as escolas.
Uma vez que o conhecimento está tão disponível através dos novos meios tecnológicos e de informação como a Internet, por exemplo, as famílias mais educadas poderão começar a desprezar as escolas. O especialista dá o exemplo do "home schooling", o ensino em casa, modelo preferido pelos pais que perderam a réstia de fé nos estabelecimentos de ensino e se atemorizam perante o perigo da violência e das drogas nas escolas. Sem essas más influências, estudar em casa teria ainda a vantagem de estreitar os laços familiares e a passagem de valores.
É que o tempo em que os professores das escolas eram essenciais- quando tinham acesso ao conhecimento e ao material negado à maioria dos pais - já passou. As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) permite o acesso a um volume inimaginável de informação. Muitos dos pais que optam por ter os filhos a estudar em casa são utilizadores das TIC: "Porque é que hão-de enviar as crianças para a escola onde os professores têm medo das TIC?" Para além do mais, poderia haver sempre o recurso a professores, escolhidos pelos pais, que educariam os filhos nos aspectos concretos e com as orientações precisas determinadas por quem os contratava.
Mas
mais importante, avisa Hargreaves, é que as crianças educadas
em casa têm mais probabilidades de desenvolver as capacidades, atitudes
e posturas de auto-confiança, sendo capazes de se adaptarem a novas
realidades e de trabalhar em rede. Tudo características
indispensáveis
num mercado de trabalho flexível, de auto-emprego, do próximo
século e que "apesar da retórica oficial são muito
difíceis de alimentar nas escolas e classes convencionais".
Alguns do especialistas dos 29 países da OCDE ficam alarmados com este cenário, pois receiam que a educação ficará ainda mais do que hoje dependente do contexto familiar de cada um. O efeito socializador e nivelador das escolas desapareceria. Hargreaves é menos pessimista, antevendo novas ligações entre o ensino em casa e as escolas. Aliás, a ameaça do abandono das escolas obrigá-las-iam a inovar e a descobrir novas maneiras de cooperar com os pais.
As múltiplas inteligências
Torsten Husén, investigador sueco, que na década de 70 foi autor de um relatório sobre a educação no ano 2000, sublinhou que hoje se requer a capacidade de aprender e de reaprender, numa sociedade que é cada vez mais uma "meritocracia". Já Aine Hyland, da University College, Cork, Irlanda, realçou uma postura pedagógica diferente .
A pergunta sacramental "É esta criança inteligente?" seria substituída por "Como é que esta criança é inteligente?". E faria escola uma nova abordagem no processo ensino/aprendizagem, onde se avisa que não há apenas uma estratégia pois reconhece que os indivíduos são diferentes no modo como apreendem, assimilam e memorizam novos conhecimentos.
Recorrendo à teoria das Múltiplas Inteligências (MI) de Howard Gardner - tese que desafia a visão tradicional da inteligência como uma única e que enumera pelo menos oito inteligências - Hyland sustenta que os estudantes devem ter a oportunidde de participar em pequenos grupos com diferentes tipos de capacidade e que podem promover a aprendizagem, a motivação e o desenvolvimento social.
Se cada "um de nós", insiste a especialista, "possui pelo menos oito inteligências, então a nossa experiência educativa devia oferecer-nos oportunidades para que todas fossem desenvolvidas edevia reconhecer o potencial que existe no facto de se aceder ao conhecimento através de várias inteligências". Isto significa que "o curriculum deve ser planeado de forma a que os alunos possam ver envolvidas regularmente todas as suas áreas de inteligência" O que não sucede agora no Ocidente, onde os sistemas educativos "tendem a realçar a inteligência linguística ou a lógica/matemática (a capacidade para usar com eficiência as palavras ou os números, respectivamente) enquanto a do corpo/sinestésica (perícia no uso de todo o corpo para exprimir ideias e sentimentos) e a intrapessoal (conhecimento próprio e capacidade para agir com base nesse conhecimento) e interpessoal (a habilidade para perceber e distinguir os humores, intenções, motivações e sentimentos das outras pessoas) são negligenciadas ou marginalizadas". Gardner enuncia ainda três outras inteligências: a visual/espacial (a habilidade para perceber com exactidão o mundo visual/espacial) a musical e a naturalista (a habilidade para reconhecer e classificar as inúmeras espécies do ambiente).
Hyland
concretiza a teoria para o PÚBLICO: "O professor deve ser capaz
de perceber que se na sua turma um aluno é capaz de compreender
melhor aquilo que ele está a tentar ensinar através da música,
então use-se a música. Para outro, se calhar é melhor
um computador e para um terceiro se calhar um pincel". Tudo numa lógica
de integração, nada de turmas separadas, todos na mesma classe.
E como seria a avaliação final destes alunos? "Teria que
ser adaptada". "
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Por DULCE NETO, Segunda-feira, 30 de Novembro de 1998
Como está, a escola não serve. Não serve hoje e servirá muito menos amanhã. A escola do futuro terá que ser diferente se quiser responder às necessidades da sociedade. Mas mudar como? E como esquecer que se está "a redesenhar o avião enquanto se está a voar" como lembrou em Poitiers, França, Ken Mcguire, especialista norte-americano?
A OCDE está a tentar responder ao desafio lançado pelos ministros da Educação: estudar abordagens promissoras, identificar exemplos de boas prácticas para os alargar e encontrar perspectivas alternativas para a "escola de amanhã", sob a luz das novas tecnologias e novos métodos pedagógicos.
Do trabalho até agora desenvolvido pelo CERI (aguarda-se ainda a publicação do relatório correspondente ao seminário realizado no ano passado em Hiroshima sobre "As escolas hoje eamanhã: inovação e mudança") podem descortinar-se quatro caminhos para que as escolas e os sistemas educativos consigam inovar sem desestabilizar.
Antes de mais há que adaptar os objectivos da escola à chamada sociedade do conhecimento. Já não importa ter um maior ou menor domínio de algumas áreas do saber, num registo mais ou menos enciclopédico. O que interessa agora é que todos possuam novas habilidades e capacidades que os transformem em indivíduos aptos para resolver problemas e motivados para aprender, capazes de enfrentar desafios imprevisíveis ao longo da vida. Mais do que o saber, é fundamental saber fazer e saber aprender.
Um outro ponto é o de desenvolver partenariados, abrir a escola à comunidade, no pressuposto de que a educação não mais se esgota na transmissão de conhecimento do professor para o aluno. Ambos devem ser vistos como criadores de conhecimento ao mesmo tempo que as escolas, os pais e a comunidade serão co-alunos.
Depois surge a necessidade de redefinir o curriculum maioritariamente baseado num elenco de assuntos a dominar para um outro onde se enfatiza o desenvolvimento de capacidades, valores e carácter. Nos países da Ásia Oriental, onde o valor do trabalho é tradicionalmente mais forte, tem havido ultimamente uma tendência para dar relevo a características como a da inovação e de invenção. Na Malásia, por exemplo, foi recentemente introduzida uma disciplina em 100 escolas que se chama "Invenção". Mas no Ocidente, incide-se mais na discussão do processo de ensino/aprendizagem.
Finalmente, a OCDE indaga
sobre a infra-estrutura do ensino, onde se analisa o funcionamento da escola,
o uso da tecnologia e a organização física e temporal
da instrução. As escolas mais inovadoras de um leque alargado
de países são, em geral, mais autónomas, recorrem
a aulas em equipa, currículos onde impera a interdisciplinaridade
e turmas com alunos de idades variadas."
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- João Baptista Magalhães, "Jornal de Notícias" 22.1.99.
"Professor, uma profissão em extinção.
* João Baptista Magalhães
Foram publicados recentemente
os resultados dum estudo internacional de avaliação dos sistemas
educativos na área da matemática e das ciências. Este
estudo (Terceiro Estudo Internacional de Matemática e Ciências)
foi concebido para ser aplicado a populações de estudantes
de 9,13 e 17 anos de idade, envolvendo em Portugal apenas os alunos do
7º e 8º ano de escolaridade .
Os melhores resultados foram
obtidos por Singapura, Coreia, Japão e República Checa.
Os alunos portugueses ficaram
situados nos últimos lugares.
Tal facto deveria preocupar
as Associações de Pais e, naturalmente, esperava-se que o
Ministério da Educação procurasse aprofundar o diagnóstico
desta situação, participando no inquérito internacional
promovido pela OCDE para a avaliação das competências
e conteúdos desenvolvidos pelos diferentes sistemas educativos.
Sem o apoio de dados comparativos, corremos o risco de comprometermos os
desafios do futuro com uma lógica prisioneira de uma retórica
que dispensa a avaliação rigorosa e fundamentada. E são
tão prementes os estudos comparativos, quanto é certo que
numa sociedade global não há diplomas académicos para
competir apenas nos países de origem, mas na Europa e até
no mundo.
Não vamos analisar
pelas diversas vertentes os dados colhidos no referido estudo.
Apenas queremos sublinhar
dois aspectos: primeiro, que ele revela uma correlação nítida
entre os resultados obtidos em cada país e o nível sociocultural
do meio familiar dos alunos, medido nomeadamente no número de livros
existentes em casa. Este dado é fundamental: os nossos alunos não
são estimulados para a leitura, porque em casa também não
têm exemplos que estimulem esses hábitos. Ora, não
desenvolvendo o gosto pela leitura não podem desenvolver o treino
de análise e interpretação de textos necessários
à compreensão de problemas escritos e não compreendendo
esses textos não criam hábitos de estudo que possibilitam
o sucesso escolar. Segundo, os alunos dos países que obtiveram bons
resultados no inquérito referem que o trabalho de casa para as disciplinas
de matemática e ciências ocupa-lhes um tempo superior a três
horas por dia e, entre ver televisão e falar com os amigos, não
gastam fora do tempo lectivo mais do que uma hora. Não temos elementos
que nos permitam saber o tempo que os alunos portugueses dedicam em casa
ao trabalho escolar, no entanto, o citado estudo conclui que os nossos
alunos não são capazes de mobilizar as aprendizagens anteriores
para a compreensão de novos conhecimentos.
Estes problemas são
reais e dão que pensar. Entretanto, não vão faltando
nas escolas as ocupações retóricas: discute-se regulamentos
e documentos orientadores, fazem-se relatórios e as Associações
de Pais pedem explicações sobre as notas que determinado
professor deu em determinada
turma, promovem-se reuniões e mais reuniões para pôr
a funcionar uma virtual comunidade educativa, anunciam-se novas medidas
e exige-se aos professores muitas unidades de créditos e a participações
em muitas "pedagógicas" acções que fazem esses abastados
currículos que acompanham os relatórios empolgantes de mudança
de escalão, num frenesim que não deixa tempo para olhar de
frente os reais problemas da aprendizagem dos nossos alunos. Talvez, por
isso, nem as Associações de Pais, nem o M.E., nem o Conselho
Nacional de Educação, nem a maioria dos sindicatos dos professores
estejam preocupados com o facto de Portugal ser o único país
da OCDE que não vai participar no mega inquérito do início
do milénio sobre o que sabem ou não os alunos que acabam
a escolaridade obrigatória. Talvez, por tudo isso, ser professor
é, entre nós, uma profissão em extinção."
* Professor e mestre em filosofia
| 3.
OPINIÃO
|
Por YEHUDI MENUHIN
Quarta-feira, 24 de Março
de 1999
No passado dia 17 de Fevereiro, o músico e pedagogo Yehudi Menhuin escreveu em Londres um texto intitulado "Carta aberta ao Conselho da Europa", que se destinava a ser publicado em diversos jornais europeus (PÚBLICO incluído) nas vésperas da cimeira europeia que hoje se inicia em Berlim. A morte de Menhuin, ocorrida a 12 de Março, impediu-o de ver a carta publicada, mas não constitui impedimento à publicação, respeitando a vontade do seu autor. O que era para ser mais uma intervenção pública desse grande violinista (um dos maiores do século) e homem de paz, ficou assim como o seu derradeiro apelo em prol da cultura na Europa do futuro.
A agenda 2000 que define o quadro político e financeiro para a Europa alargada é o "dossier" fundamental que se encontra actualmente em cima da mesa dos governos dos Estados-membros da União.
Eles irão debatê-lo ao mais alto nível, informalmente nos dias 24 e 25 de Fevereiro, depois nos dias 24 e 25 de Março em Berlim, e finalmente em Junho no conselho europeu que encerra a presidência alemã.
Sendo eu um europeísta convicto, li com atenção o que saiu na imprensa sobre os temas em debate neste momento crucial em que se define a Europa do futuro. Não tendo encontrado nada sobre a dimensão cultural, pedi para ver a proposta original da Comissão Europeia sobre a agenda 2000. Nada. Surpreendido, pedi o relatório do Parlamento Europeu - com o debate em curso - sobre esse mesmo texto. Novamente, nada. Perguntei se, ao menos, os novos regulamentos dos fundos estruturais previam uma secção cultural. Não, responderam-me.
O papel das culturas da Europa para a qualidade da sociedade europeia, a contribuição dos criadores, dos artistas, para a felicidade de todos os nossos cidadãos não mereceram até ao momento a atenção dos decisores europeus.
E, no entanto, só o exercício das artes, dos nossos sentidos (como o do ouvido) e da diversidade de culturas da Europa é capaz de dar origem ao verdadeiro respeito pelo próximo e ao desejo de paz que permita levar a cabo as nossas próprias realizações, bem como as realizações colectivas de todos aqueles que partilham a nossa responsabilidade para com esta terra que sofre. Só com uma formação criadora, que não suprime nenhum dom da criança, mas, pelo contrário, a civiliza, poderemos em conjunto construir uma sociedade que domine e absorva a sua violência .
É a arte que pode estruturar a personalidade dos jovens cidadãos no sentido da abertura de espírito, do respeito pelo próximo, do desejo de paz. É a cultura, de facto, que permite a cada pessoa enriquecer-se com o passado para participar na criação do futuro. Só ela, ao unir a diversidade, nos oferecerá uma verdadeira consciência europeia. Porque é a eclosão da diversidade das culturas que dá à Europa todo o seu esplendor e que através dos séculos atraiu para nós o resto do mundo.
Ignorando de uma forma tão manifestamente cega a cultura, estão a construir uma torre de marfim assente em areias.
Eu tive a sorte de nascer numa família que me ensinou três coisas: que cada pessoa tem qualquer coisa de único para contribuir para o progresso do planeta; que o respeito e o desejo decompreender são a verdadeira base da relação com os outros; que a arte é uma antena preciosa para captar o futuro que não pode ser reservado só a alguns.
No momento em que os líderes políticos da União Europeia se preparam para definir as regras do jogo para entrar no terceiro milénio, é necessário - é absolutamente necessário - que o papel impulsionador da cultura seja consagrado no texto-quadro e no orçamento da Agenda 2000, bem como na declaração final do Conselho Europeu de Junho.
Trata-se de um dever irrevogável que temos para com as gerações futuras.
*violinista. Morreu no dia 12/3/99, aos 82 anos.
Sepia - educação em arte |
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Intervenções
plásticas de alunos em Escolas Secundárias
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