Textos sobre educação

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António Carvalhal, Leonor Soares
Actualizado em 29.9.2009

 
 
. Dificuldades na escola são um sintoma, não um problema
. Não à pressão
. Os estudantes gostam da escola como um local de convívio, mas não de trabalho


Jornal "Público" Quarta-feira, 28 de Março de 2009

(textos transcritos pelo seu interesse, com a devida vénia. Destaques do Sépia)



Dificuldades na escola são um sintoma, não um problema

Dificuldades na escola são um sintoma, não um problema

Por Paula Torres de Carvalho

A tendência para a "patologização" das dificuldades escolares e o recurso à "psicofarmacoterapia" podem transformar situações transitórias em situações crónicas, alerta pedopsiquiatra


Uma mãe aflita num consultório de um pedopsiquiatra. Há mais de meia hora que fala das dificuldades que o seu filho de dez anos revela na aprendizagem da escrita. "Como é que se pode resolver este problema?", pergunta.

O médico, psicanalista, que a escuta em silêncio, responde: "Qual problema?"

"Mau", pensa a mãe. "Será que estive a falar para o boneco?"

O pedopsiquiatra olha-a atentamente e esclarece: "É que isso não é um problema, é um sintoma".

Primeira grande questão: as dificuldades entendidas como um sinal, em vez de um problema.

O médico é Emílio Salgueiro, também director do Centro João dos Santos (Casa da Praia), fundado pelo prestigiado psicanalista João dos Santos para acompanhar crianças com dificuldades de aprendizagem.

"É mais simples e exige menos trabalho pensar que as dificuldades na escola são um problema ou uma doença", diz Salgueiro. São questões que, frequentemente, perturbam muito os pais e, com uma grande "carga moral", são traduzidas como "preguiça" ou como um "defeito de personalidade".

Contudo, as dificuldades ligadas a lesões do sistema nervoso central são "raríssimas", assegura Salgueiro.

O que sucede, em grande parte dos casos de crianças que demonstram dificuldades na escola, é que elas revelam uma "maturação mais lenta" do que outras. Aquilo que se designa habitualmente como "retardamento evolutivo" e que é, muitas vezes, uma situação transitória. As causas são, habitualmente, complexas e têm a ver "com a criança, com os pais e com a escola", explica o pedopsiquiatra.

No seu consultório, a mãe, ansiosa, pede: "Não conhece ninguém que possa ajudar o miúdo? Um explicador?"

O médico pensa. A resposta surpreende: "Vou ver se me lembro de alguém apaixonado por esta área da língua e da escrita".

Segunda grande questão: quanto mais gosto existe pelo que se sabe, melhor se transmite. É um dos segredos.

Qualquer coisa como conseguir "contaminar" o outro com "a paixão e a alegria" pelo saber, uma espécie de "sintonização de paixões" pelo conhecimento, diz Emílio Salgueiro. Assim se criam melhores condições para aprender. E é por isso que os professores que conseguem melhores resultados junto de alunos desinteressados são,habitualmente, pessoas apaixonadas pelos assuntos que ensinam.


Dislexia

O amadurecimento mental que determina uma maior facilidade em aprender não se regista à mesma velocidade em todas as crianças, por uma série de motivos. Mas a tendência para a "patologização" da dificuldade e o recurso à "psicofarmacoterapia" muito em uso pode transformar uma situação transitória numa situação crónica, alerta Salgueiro.

O que se observa, em muitos casos, é que um diagnóstico de uma qualquer patologia para explicar as dificuldades na escola alivia muitos pais quanto aos seus complexos de culpa e muitas crianças que querem agradar aos seus pais e professores. Justificados os motivos com uma causa externa, todos ficam mais descansados.

O início do ano lectivo marca a "época alta" nos consultórios dos pedo-psiquiatras e dos psicólogos infantis, com pedidos de ajuda, segundo Emílio Salgueiro.

Um dos diagnósticos mais comuns para justificar a dificuldade de aprender é o de dislexia. Um termo utilizado "abusivamente" como doença por professores, pais e até muitos psicólogos, diz o pedopsiquiatra. Mas a verdade é que a dislexia não tem outro significado senão o de dificuldade de ler, diz o médico. Não é defeito nem doença.

Ana Cristina Santos, psicóloga no Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais há dez anos, confirma que "são muito raros os problemas de dislexia pura" entre as mais de cem crianças entre os seis e os 15 anos que acompanha no Serviço de Psicologia que serve as escolas do agrupamento.

Ana Cristina Santos não dispõe de estatísticas que forneçam uma visão real do problema, mas tem a percepção que, "ao longo do tempo, tem aumentado o número de casos" de crianças com dificuldades de aprendizagem que recorrem ao apoio educativo. Entre as situações mais comuns incluem-se as que já foram detectadas a nível nacional e resultaram na criação dos planos nacionais de matemática e de leitura.

A estas juntam-se os problemas de comportamento. No entanto, ressalva a psicóloga, "muito raramente" regista ali apenas dificuldades de aprendizagem que surgem, sim, associadas a problemas de organização familiar e a outros problemas sociais que se traduzem numa "falta de disponibilidade para aprender".


A importância das emoções

O número de casos de crianças com dificuldades recebidas no Centro Doutor João dos Santos (Casa da Praia) também tem aumentado de ano para ano, segundo uma das suas dirigentes, a professora de ensino especial Fernanda Ramos.

Estes casos começam por ser detectados, muitas vezes, dentro das escolas e são encaminhados para os serviços de pedopsiquiatria dos hospitais e para os consultórios dos psicólogos, onde, vulgarmente, são o primeiro motivo de pedido de consultas.

A importância das experiências emocionais na capacidade de pensar também não pode ser dissociada da reflexão acerca das dificuldades de aprendizagem, segundo muitos técnicos da área da saúde mental. Este é um dos aspectos referidos no livro mais recente do pedopsiquiatra Pedro Strecht, A Minha Escola Não É Esta, dificuldades de aprendizagem e comportamento em crianças e adolescentes(Assírio &Alvim). Para Strecht, um aluno em dificuldade escolar é "sempre alguém que luta activamente por uma coesão interna e por um esforço de ligação a quem o cerca". Por isso, "é fundamental a mensagem implícita contida na relação de quem aprende com quem ensina", escreve, defendendo que o desenvolvimento intelectual e afectivo são "indissociáveis".


 
 

Não à pressão

Não à pressão

Valorizar o prazer de saber

A pressão constante sobre a criança com dificuldades escolares e a exigência para que estude, exercida diariamente em muitas famílias, acabam, muitas vezes, por ter efeitos contrários aos pretendidos.

O pedopsiquiatra Emílio Salgueiro sublinha que, em vez da aflição e da preocupação quanto ao "desempenho", é preferível transmitir o gosto pelo conhecimento. "A pressão para a aprendizagem acaba por ter efeitos contrários", considera, notando que essa pressão que se traduz num stress constante para a criança, "chama a atenção para a dificuldade em vez de valorizar o prazer que pode existir no saber". "O ênfase é posto na dificuldade e na crise", alerta.

A lógica prémio-castigo é instituída em muitas famílias como uma condição para garantir o sucesso escolar e condiciona mesmo as relações entre pais e filhos. Tudo se organiza no sentido de recompensar e de castigar, consoante os resultados do desempenho na escola.

Embora o interesse dos pais pelos progressos escolares dos filhos seja considerado importante para que a criança se sinta estimulada, já o psicanalista João dos Santos salientava: "Não parece muito salutar que os pais se confundam com os mestres, e transformem o lar numa espécie de internato - daqueles que fabricam rapazes e raparigas para exames e diplomas - ou, mesmo em certos casos, em casa de correcção, onde se não fala senão de estudo, de deveres, de notas, de exames, de ameaças e castigos". E advertia: "Castigar com estudo é desvirtuar os princípios espirituais do ensino, que devem ter como ideal ensinar como prémio, como prova de interesse e de amor pelo semelhante. Se se castiga com o aprender, é porque se não ensina com amor."


 
 

Os estudantes gostam da escola como um local de convívio, mas não de trabalho


Os estudantes gostam da escola como um local de convívio, mas não de trabalho
Por Paula Torres de Carvalho

Falta de bases e de regras, facilitismo e apelos da sociedade são apontados como factores que contribuem para o desinteresse da escola

Há 30 anos que ela é professora. É uma professora dedicada que gosta muito de ensinar e que gosta muito do que ensina: História.

Actualmente dá aulas numa escola dos Olivais a crianças entre os nove e os 15 anos. Mas, de há uns anos para cá, tem andado desgostosa. Não poupa críticas ao modo de funcionamento do sistema de ensino. Critica o facilitismo. E acha que um dos resultados é o desinteresse crescente dos alunos pela escola.

Tal como outros professores contactados pelo PÚBLICO, prefere manter o anonimato para "não criar problemas" nas escolas onde trabalha nem dar motivo a possíveis "retaliações" às críticas.

No início de cada ano lectivo, esta professora costuma distribuir inquéritos para avaliar o interesse dos alunos pelas matérias. "São muito poucos os que assumem que gostam de estudar", conta. "Eles dizem que gostam da escola, mas como um local de convívio, não de trabalho". Nos inquéritos admitem que não lêem e que não gostam das matérias.

Entre os vários factores que podem contribuir para a desmotivação dos alunos, ela aponta a "massificação do ensino" que abre as escolas a crianças de todos os estratos sociais, "outros interesses e solicitações da sociedade" e as turmas de inclusão que integram alunos deficientes e que dificultam o funcionamento da sala de aula, muitas vezes com mais de 20 crianças.

A professora concorda que, em determinados caos, um bom docente pode influenciar positivamente e até determinar o interesse de um aluno pela escola, mas nota que nem sempre isso acontece. E refere a sua experiência de mãe. Considera que, no ano passado, a sua filha, de 16 anos, teve "professores óptimos", mas "não foi isso que a levou a estudar mais". O seu empenho nos estudos foi muito mais determinado pelas regras que ela, mãe, impôs e que a obrigaram a cumprir um horário de estudo diário. Por isso, considera que "a família acaba por ser mais importante do que os professores" nessa matéria.

Em Abrantes, outra professora que lecciona Português a alunos do quinto ano, em turmas de 27 alunos, também pede o anonimato. Na sua opinião, a "má preparação com que as crianças vêm da escola primária" é um dos principais motivos das dificuldades de aprendizagem. O "facilitismo" do sistema de ensino também "não ajuda a progredir", bem como, em certos casos, "as críticas que os pais fazem à instituição escola".

Muitos desses alunos precisavam, em seu entender, de "regras" e de "outras famílias a apoiá-los".

Mas as dificuldades escolares não se circunscrevem aos meios sociais mais desfavorecidos nem a famílias disfuncionais. Existem também em meios familiares organizados e elitistas.

O António tem 14 anos e é filho de um professor e de uma educadora. Apesar do ambiente de atenção e empenho relativamente ao estudo existente dentro da família, desde pequeno que o António tem revelado dificuldades de aprendizagem que se traduzem em "colecções" de negativas e já resultaram em dois chumbos. Nem o apoio educativo proporcionado adiantou e, para desgosto dos pais, continua a não manifestar qualquer interesse pela escola e a acumular insucessos.

Eduarda, filha de jornalistas, a viver numa casa onde já não há mais espaço para livros, onde se discute política e se ouve música clássica, é um autêntico desastre na escola. Mesmo com a pressão e acompanhamento dos pais, que não faltam a nenhuma reunião na escola para discutir o "problema" e todos os dias se zangam com ela, ao constatar o seu desinteresse e "irresponsabilidade" no que respeita aos seus "deveres", ela não muda.

Desesperados, os pais já a mudaram de escola mais do que uma vez e recorreram a explicadores que os obrigaram a gastar rios de dinheiro. Nada resultou.

Uma explicação de um psicólogo que analisou o seu caso tornou clara uma situação que está na origem de outros casos de dificuldade escolar: o medo de competir e de não conseguir corresponder à imagem exigida pelos adultos.

Já o médico psicanalista João dos Santos fez referência a estas situações quando escreveu: "Pelo recurso ao fracasso, sobretudo manifesto no plano escolar, a criança evita vencer o pai, ou mesmo aproximar-se dele. Os "homens importantes" que, em vez de simplesmente se oferecerem como modelo aos filhos, os esmagam com a exibição das suas qualidades e dos seus êxitos passados e presentes, criam, por vezes, nas crianças o medo de competir". E explicou: "A admoestação e a repressão frequentes, a intolerância, o interesse exclusivo pelos resultados obtidos pela criança e não pela sua pessoa, mantêm a culpabilidade. O conflito interior estabiliza-se e não se resolve, por a realidade exterior aparecer como demasiado ameaçadora".


 
 
 




 
 

Sepia - educação em arte
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