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O grande fotógrafo (foto-jornalista) Moçambicano Ricardo Rangel morreu no passado dia 12 de Junho na sua casa em Maputo.
Como forma de (pequena) homenagem coloco aqui no
Sépia-Fotografia quatro fotografias suas, de um
livro/catálogo com imagens de vários fotógrafos
Moçambicanos, denominado "Moçambique a preto e branco",
"edição limitada, Dezembro 1972 - CODAM".
Fica também um belo texto do Jornal "Público" de 17-6-2009
In jornal "Público", suplemento P2, 17-6-2009
RICARDO RANGEL
1924-2009
17.06.2009, Alexandra Prado Coelho
Os amigos disseram-lhe adeus ao som de Charlie Parker, como ele teria
gostado. O jazz era, a seguir à fotografia, a grande
paixão de Ricardo Rangel, o decano dos fotojornalistas
moçambicanos, que morreu aos 85 anos. Desapareceu o homem com
"um clique mágico". Por Alexandra Prado Coelho
Um dia, numa conversa de café, o fotojornalista
moçambicano Ricardo Rangel ouviu falar de um miúdo negro
que era pastor e trabalhava para um criador de gado português
que, como castigo por ele ter perdido um animal, o tinha marcado na
testa com o mesmo ferro em brasa que usava para marcar o gado.
Rangel pegou no carro e, juntamente com Raul Alves Calane da Silva,
companheiro de redacção, pôs-se a caminho para a
zona de Changalane, onde lhe tinham dito que o miúdo vivia.
Procurou-o durante dois dias até finalmente o encontrar.
Chamavam-lhe "o oito", por causa dessa marca, em forma de oito deitado.
Rangel fotografou-o - os olhos de uma tristeza infinita, e a marca do
patrão gravada na testa.
"O
indivíduo [o português] queria dar-nos um tiro", recorda
Calane da Silva, ao telefone com o P2 a partir de Maputo, a capital
moçambicana, poucas horas depois do funeral do seu grande amigo
e companheiro de aventuras desse tempo em que perseguiam as
notícias "até às últimas
consequências, mesmo com risco de vida". Ricardo Rangel morreu no
dia 11, em Maputo, aos 85 anos, na sequência de problemas
cardíacos, e teve, na segunda-feira, um funeral com honras de
Estado. A última despedida dos amigos foi como ele tinha pedido:
"ao som de Charlie Parker", conta Calane da Silva.
"O
Ricardo tinha um clique mágico", continua o amigo. "Estava
sempre com os olhos atentíssimos e aliava o fotojornalismo
à arte fotográfica." Gostava de sair para a rua e
fotografar, mesmo sabendo que no Moçambique
pré-independência a censura não iria deixar passar
a grande maioria das imagens. "Ele guardava-as porque tinha o sentido
da História. Ia-as recolhendo, sabendo que um dia seriam a
imagem histórica do que aconteceu."
Ia registando um país. E fazia-o "com uma consciência
política muito mais marcada que o resto do pessoal", sublinha ao
P2 Kok Nam, outro grande nome do fotojornalismo moçambicano e
companheiro de trabalho de Rangel em várias
publicações. "Ele já era anticolonial nos anos 40.
Teve sempre muito a noção da exploração do
homem pelo homem."
A Rua Araújo
Filho de um negociante grego, Ricardo Rangel, que nasceu em 1924 na
então Lourenço Marques (hoje Maputo), tinha uma mistura
de sangue europeu, africano e chinês que fez dele o primeiro
foto-repórter não branco a trabalhar para a imprensa
moçambicana. Em 1941 foi estagiar para o laboratório de
fotografia de Otílio Vasconcelos, passando depois pelo
estúdio fotográfico Focus, antes de, em 1952, chegar
finalmente aos jornais, tornando-se "foto-repórter" do
Notícias da Tarde, onde ficou até em 1956 se mudar para o
Notícias. "A fotografia sempre foi para mim uma coisa
mágica e comecei no laboratório, a varrer o
laboratório. Andei anos nisso", confidenciou a Luís
Carlos Patraquim, numa entrevista publicada em 1991 no PÚBLICO.
"Só muito mais tarde me atrevi a pegar num caixote e, mesmo
assim, quase às escondidas."
Era depois de terminar o trabalho e de sair da redacção
que, com a "Canon a tiracolo e uma sede infinita de estar com a sua
gente, rumava à grande catedral dos sacrifícios
ingénuos", a Rua Araújo, na Baixa de Lourenço
Marques, relata Patraquim. "No começo não sabia porque
tirava certas fotos", confessa-lhe Rangel. "As pessoas diziam-me: 'Tu
não és preto, porque é que andas a tirar
fotografias a pretos?' Comecei a tomar consciência quando as
queria publicar e a censura cortava. Nada de mendigo, o gajo todo roto
a pedir, o polícia a algemar o 'indígena'. Tirei muitas
fotos que sabia que nunca seriam publicadas. E guardei sempre os
negativos."
Mais
tarde as fotos da Rua Araújo transformar-se-iam num livro, O
Pão Nosso de Cada Noite, e eternizariam as prostitutas de
calções curtos e penteados elaborados que nos anos 60 e
70 trabalhavam nos bares Texas ou Casablanca. "A Rua Araújo era
impublicável", conta Rangel nessa entrevista. "Muitas das minhas
chapas ficaram nas redacções por onde andei, mas o que,
ao longo da década de 60, fui fixando da minha rua, esse
é material que me pertence."
Entre as prostitutas, os marinheiros e os noctívagos da Rua
Araújo misturavam-se muitos pides, recorda Calane da Silva. E
durante anos Rangel fotografou-os. Depois do 25 de Abril, Calane
escreveu uma grande reportagem sobre eles, e publicaram as imagens.
"Pusemos os homens com os nomes em baixo e tudo."
A paixão pelo jazz
Entre os anos 60 e 64, Rangel foi chefe da secção de
fotografia do recém-fundado A Tribuna. E, em 1970, com outros
jornalistas, entre os quais o colega fotojornalista Kok Nam,
lançou-se na aventura da revista Tempo, a primeira a cores em
Moçambique. Kok Nam lembra-se da última página
chamada Objectiva, "que seria como que o editorial dos
repórteres fotográficos", e do peso que a fotografia
conquistou na altura. Mas lembra-se também como na Tribuna
Rangel "fez grandes reportagens nos subúrbios, quando
ninguém pegava nos subúrbios", e como, apesar de
"não ser um fotógrafo oficial", fotografou três
chefes de Estado depois da independência. "Viveu tudo, deixou uma
grande obra, deixou a história de Moçambique registada."
Foi nos anos 60 que José Luís Cabaço
começou a ter um contacto mais intenso com ele.
"Partilhávamos visões sobre o colonialismo e
pertencíamos ao mesmo grupo", conta ao P2. Mas foi depois da
independência, na época em que Cabaço se tornou
ministro da Informação, que "a amizade se consolidou", e
quando decidiu criar "o Domingo [em 1981], que era um jornal muito
gráfico, muito ligado à vida quotidiana", o ministro
achou que "a pessoa óbvia" para o dirigir era Rangel. "Era a
primeira vez que um fotógrafo assumia a direcção
de um jornal", sublinha.
Mas Rangel era muito mais do que um grande fotógrafo, afirma
Cabaço. "Deu-nos uma grande lição de alegria de
viver, amor pela vida e pelas pessoas e grande indignação
com as injustiças." Amava a fotografia e amava profundamente o
jazz. "O jazz tinha raízes na afirmação africana,
na ideia do negro como sujeito musical, e é um elemento
fundamental para compreender as várias dimensões
através das quais Rangel vivia o seu nacionalismo", explica o
antigo ministro.
Até à chegada de Rangel, "a fotografia em
Moçambique era a do colono, e o colonizado aparecia como
complemento". Ele "traz o colonizado para sujeito do processo de
registo, na sua dimensão de dominado e explorado", e assim
torna-se "um construtor privilegiado do imaginário
anticolonial". Era nas imagens dele que o novo país se podia
finalmente ver ao espelho.
E
esse espelho mostrava as injustiças, mas mostrava também
outras realidades. Calane da Silva lembra-se de uma imagem que Rangel
mostrou na primeira exposição que fez em
Moçambique, em 1957, e que mais tarde lhe ofereceu: um casal
português, brancos de meia idade, transportando cimento à
cabeça, enquanto constroem a sua casa, lado a lado com dois
operários moçambicanos. Uma imagem a dizer que "os
colonos também podem ser gente como nós".
Quando,
em 1971, Rangel foi enviado a Portugal para cobrir o primeiro festival
de jazz de Cascais, voltou também cheio de fotografias que
mostravam as peixeiras portuguesas, e as mulheres de trouxas à
cabeça, para mostrar que afinal as diferenças entre um
mundo e o outro não eram assim tão grandes. "Era
também uma pedagogia", explica Calane da Silva.
Ricardo Rangel gostava de ensinar, e várias
gerações de fotógrafos moçambicanos
aprenderam com ele, primeiro nos jornais, depois, a partir de 1983, no
Centro de Documentação e Formação
Fotográfica de Maputo, que dirigia. Sérgio Santimano,
hoje a trabalhar na Suécia, foi um dos que estagiaram com ele no
Domingo. E não esquece o muito que aprendeu. Não esquece,
por exemplo, o dia em que, encarregue de fazer fotos para um trabalho
sobre o amor, ouviu as críticas de Rangel. "'Sérgio',
disse ele, 'isto não é amor. Sabes o que é fome?',
perguntou. E de repente meteu a fotografia na boca e começou a
comê-la. 'Sabes o que é dançar?' E, sem eu ter
tempo de reagir, agarrou-me e começou a dançar. Percebi o
que ele queria dizer: a fotografia não pode ser meios-termos,
meio gás." Mais tarde, já depois de viver na
Suécia, encontrava-se às vezes com Rangel e falava-lhe
nos seus projectos fotográficos. "Ele brincava com isso. 'Tu
tens sempre projectos', dizia. 'Eu nunca tive nenhum projecto. Acho que
um dia também vou ter que arranjar um projecto.'"
Santimano e todos os outros que aprenderam com ele "partilham a mesma
visão humanista", escreve Simon Njami, director da bienal de
fotografia de Bamako, no Mali, num texto para a exposição
Iluminando Vidas, que esteve na Culturgest Porto em 2004.
Rangel "ensinou-lhes a importância de uma
interpretação com pudor e respeito pelo semelhante, como
se o tema da fotografia fosse uma maneira de criar incessantemente um
auto-retrato".

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1 - Ricardo Rangel - Criança